OPINIÃO: Tecto de vidro e efeito contrário – Eduardo Magalhães

“Uma semana após a reportagem da SIC, dedicada a ‘explicar’ a pobreza e o consumo de champanhe em Angola”.

Luanda, 24 NOVEMBRO 16 (5ª FEIRA) - Atirar pedras é sempre a arma mais fácil, para aquele que tenta, em vão, esconder as próprias fragilidades.
Como era previsto, a estratégia da imprensa portuguesa, de pintar Angola como a Nação da pobreza na terra não foi capaz de ocultar a crise económica que é vivida por lá.
Por ironia do destino, a próxima vítima é, exactamente, a comunicação social, responsável por esconder do seu público a dura realidade na qual está inserida.
Ao ler na publicação portuguesa “Jornal i”, na reportagem “Comunicação social em águas agitadas”, longe do sentimento de vingança, manifestamos aqui a grandeza da solidariedade.
Não há razões para que os angolanos vibrem com os problemas financeiros na ordem dos 470 milhões de euros em dívidas dos quatro grandes grupos, segundo foi publicado, que podem provocar a demissão de centenas de jornalistas e engrossar a lista de desempregados naquele país.
O certo é que a depressão económica atravessada por Portugal nos últimos anos perdeu espaço no debate, para a cobertura desportiva, sobretudo o futebol. Os jornalistas, menores culpados nesta estratégia, agora provam dos frutos dessa omissão. Os órgãos de comunicação social portugueses estão mergulhados numa crise profunda, mas esta é posterior à crise moral.
De um modo geral, a distância entre a opinião pública e a opinião publicada caracterizou a informação produzida pela imprensa portuguesa, como um acto de má-fé e de interesses outros.
Uma imprensa não pode permitir que a notícia que produz seja um enigma que exija esforço e habilidade do receptor, na separação entre o que é publicado e a carga ideológica contida na peça noticiada.
É emblemático, no entanto, que a notícia sobre a crise na comunicação social portuguesa tenha sido publicada apenas uma semana após a reportagem da SIC, dedicada a “explicar” a pobreza e o consumo de champanhe em Angola. Quem tem tecto de vidro nunca pode esquecer o efeito contrário.
A notícia sobre a crise na comunicação social portuguesa e as consequentes demissões de jornalistas é a “pá de cal” na hipocrisia de quem tenta parecer ser o exemplo de algo que não tem a menor condição moral de sê-lo.
Nesse contexto, a lição que podemos tirar de tudo isso é que a sociedade portuguesa é plural e deve gozar do direito ao acesso a uma comunicação social capaz de exercer a pluralidade.
PortalMPLA/EM/AB

 

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