MEMÓRIAS: Grande insurreição do norte de Angola ocorreu há 57 anos

O 15 de Março é o Dia da Expansão da Luta Armada de Libertação Nacional.

 

PortalMPLA, 15 MARÇO 18 (5ª FERA) - O clima de tensão vivido em Angola, após o quatro de Fevereiro de 1961, dia do início da Luta Armada de Libertação Nacional, aumentou e, como consequência, em Março deste mesmo ano eclodiu a rebelião na região norte do País, conhecida como Insurreição de 15 de Março.

(Na foto, mapa das áreas atacadas no dia 15 de Março de 1961).

Compatriotas angolanos, organizados em pequenos grupos, desencadearam, a partir de 15 de Março de 1961, uma insurreição armada contra o regime colonial português, nas localidades de Canda, Nambuangongo, Quicabo, Quitexe, Quibaxe, Aldeia Viçosa, Zala, Bessa-Monteiro, Buela, Úcua e outras.

A responsabilidade desses actos foi imputada à UPA, que era a organização política que tinha, na altura, alguma influência naquela região. Enquanto isso, o Governo português intensificou as acções armadas contra os patriotas angolanos, abafando, ainda mais, as actividades do MPLA, que, nessa região, ainda se realizavam de forma clandestina, tendo em conta as duas frentes inimigas: a UPA e o exército colonial português.

Esta situação durou cerca de cinco anos, de 1961 a 1966, até a chegada da Coluna Cienfuegos e consequente instalação das estruturas do MPLA no Caje, Nambuangongo, expandindo-se, posteriormente, para outras regiões, onde as populações aderiram às fileiras do Movimento Popular de Libertação de Angola, devido ao seu discurso político e programa, por um lado e à ausência de base política e atrocidades cometidas pelos militantes da UPA, por outro.

As autoridades coloniais portuguesas reagiram a estes dois acontecimentos com muita violência: privações dos mais elementares direitos humanos, mortes e prisões em massa.

Como consequência do elevado número de prisioneiros, provocado pelo aumento das patrulhas e rusgas, sobretudo em Luanda, o regime colonial-fascista foi obrigado a recorrer à criação de campos de concentração e de outros lugares tenebrosos.

À semelhança do que se passou nos campos de concentração nazistas, muitos foram os angolanos que sofreram até à morte com os horrores cometidos pela PIDE (então polícia política portuguesa), torturados e humilhados de várias maneiras, com os direitos mais elementares violados, sem qualquer hipótese de defesa e sujeitos a julgamentos sumários.

Desses lugares de triste memória, citam-se os seguintes: a Cadeia de São Paulo, a Fortaleza de São Pedro da Barra, a Casa de Reclusão, em Luanda; os campos de concentração de São Nicolau, em Bentiaba, situado no deserto do Namibe; e os campos de trabalho forçado do Missombo, em Menongue, no Cuando-Cubango, de Péu-Péu, no Cunene e outros. E fora de Angola, sobretudo em Cabo-Verde, o Campo de Concentração do Tarrafal, na Ilha de São Santiago.

A história registou uma longa lista de nacionalistas que se encontravam submetidos à pena de trabalhos forçados, muitos deles participantes na acção heróica do quatro de Fevereiro de 1961: Afonso Dias da Silva, Agostinho Manuel Neto, Augusto Cardoso, Domingos Kazumbula, Imperial Santana, Lourenço Contreiras, Paiva Domingos da Silva, Salvador Sebastião, Virgílio Sotto Mayor e muitos outros.

O terror não se havia instalado apenas nas cidades. Nas zonas rurais também se vivia um clima de tensão permanente. A repressão não poupou se quer algumas igrejas, sobretudo as protestantes.

Na região norte de Angola, as três missões baptistas que existiam foram vítimas do terror. As aldeias próximas às missões baptistas do Bembe e do Quibocolo foram bombardeadas pelas forças armadas portuguesas, causando um considerável números de mortos, para além de avultados danos materiais.

Em São Salvador, hoje Mbanza-Congo, na província do Zaire, a igreja foi transformada em quartel do exército português, num acto de autêntica barbaridade, tendo muitos dos seus fiéis sido e mortos.

A Igreja Metodista, acusada de dar cobertura à rebelião, em 1961, foi alvo de violentos ataques das autoridades e dos colonos, de modo a que um ano depois, em 1962, somente oito missionários estavam nos seus postos. Cento e 30, entre os 165 pastores e professores da região dos Dembos, estavam mortos, na prisão ou desaparecidos. A sua Clínica em Luanda foi destruída por uma multidão de colonos, escoltada pela polícia.

O presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro) português, Oliveira Salazar, ordenou à “caça aos missionários”, porque suspeitava que os religiosos protestantes ingleses e americanos estavam apoiar os angolanos, na luta contra a colonização portuguesa.

Essa acusação resultou na morte dos pastores metodistas Guilherme Pereira Inglês, Cristóvão Miguel da Silva e Jacinto João Matias de Almeida. O pastor Santos Paulo Matoso viu a sua residência, nos Dembos, ser bombardeada, do que resultou a morte das suas filhas e fermentos graves à sua esposa, tendo ele próprio sido levado à cadeia, em Luanda.

As autoridades coloniais portuguesas tinham incentivado a histeria contra os protestantes. A este propósito, o antigo governador português do distrito do Uíge (1961-1965), tenente-coronel Rebocho Vaz, afirmava que “onde quer que estivesse um catecismo em 1961, encontrava-se também um chefe terrorista”.

A violência das autoridades coloniais portuguesas não se limitou apenas ao clero protestante. Ela estendeu-se, inclusive, a alguns membros do clero católico de origem africana. Estes eram considerados os mentores da situação e rebelião que se instalou nos primeiros dias do ano de 1961 e se alastrou até aos meses de Fevereiro, em Luanda e de Março, na região norte de Angola.

Seis dias depois da insurreição do norte de Angola, o cónego Manuel das Neves, da Sé Catedral de Luanda, é preso pela PIDE, acusado de ser um dos líderes em Angola e de ter tido conhecimento antecipado sobre os ataques de nacionalistas às prisões de Luanda, no dia quatro de Fevereiro.

Muito antes dos acontecimentos de Fevereiro de 1961, isto é em Junho de 1960, o padre Joaquim Pinto de Andrade que era chanceler do arcebispo de Luanda havia sido preso, acusado de desenvolver actividades subversivas contra o Estado português. Os dois foram condenados ao desterro.

Depois de negociações secretas entre o Governo português e a Nunciatura Apostólica, o ministro português do ultramar exarou, em 14 de Agosto de 1961, um despacho que passou a definir a situação dos membros do clero católico, que haviam sido deportados para Portugal.

Deveriam fixar residência vigiada em Portugal, com o compromisso de honra escrito em como não abandonariam jamais os locais de residência e ficariam todos os seus documentos de identificação, inclusive o Passaporte e a autorização para celebrar missa sob o poder das autoridades portuguesas.

Esse despacho, para além do cónego Manuel das Neves e o padre Joaquim Pinto de Andrade, era extensivo aos padres Martinho Jamba, Alfredo Osório Gaspar e Lino Guimarães.

A comunidade internacional tomou uma posição em relação à onda de opressão que se abateu sobre o povo angolano. Em 20 de Abril de 1961, o Conselho de Segurança das Nações Unidas criou uma subcomissão encarregue de estudar o problema de Angola, com o objectivo de restabelecer a verdade sobre os massacres ocorridos em Luanda.

As perseguições da PIDE nas cidades levaram, igualmente, a um movimento de saída clandestina de muitos angolanos para as zonas rurais e, posteriormente, para o exterior, onde foram juntar-se às organizações nacionalistas, sobretudo no Congo-Léopoldville, hoje RDC.

Igualmente, a repressão colonial nas zonas rurais obrigou a população do interior a refugiar-se para as matas, longe de todos os seus haveres e privada de quase tudo.

Alguns populares conseguiram, logo no ano de 1961, atravessar a fronteira para o Congo-Léopoldville, outros viveram nas matas durante alguns anos, uma vez que a travessia para aquele país era muito perigosa devido a atitude da UPA na região norte, onde tinha o controlo da área e não permitia essa movimentação com liberdade.

Somente depois da chegada dos primeiros guerrilheiros do MPLA, vindos do Congo-Brazzaville, para reforçar a 1ª Região Político-Militar, esses populares começaram a abandonar o País, para o exilio no Congo-Léopoldville. 

/História do MPLA       

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