Deputado Fragata de Morais: “É no seio familiar que são transmitidos os valores”

Intervenção, sexta-feira (20), em Luanda, do parlamentar do MPLA, no debate mensal da Assembleia Nacional de Angola, sobre o tema “O papel da família no resgate dos valores éticos, cívicos, culturais e morais”.

 

Luanda, 23 MAIO 16 (2ª FEIRA) – Intervenção, sexta-feira (20), em Luanda, do parlamentar do MPLA camarada Fragata de morais, no debate mensal da Assembleia Nacional de Angola, sobre o tema “O papel da família no resgate dos valores éticos, cívicos, culturais e morais”:

“O tópico em debate é, certamente, desafiante, pelas múltiplas vertentes nele contidas. A sua abrangência é tão vasta e, quiçá, controversa, pois o conceito tradicional africano de família vemo-lo cada vez mais em contradição com o conceito ocidental moderno, que chega ao ponto de considerar como família a agregação de seres do mesmo sexo, com todos os direitos que a jurisdição, nesses países, lhes concede. Digo isto sem julgamento de valor.

Mas, no fundo, o que é família? A família é considerada uma instituição responsável por promover a educação dos filhos e influenciar o comportamento dos mesmos no meio social. O papel da família no desenvolvimento de cada indivíduo é de fundamental importância. É no seio familiar que são transmitidos os valores morais e sociais, que servirão de base para o processo de socialização da criança, bem como as tradições e os costumes perpetuados através de gerações.

O ambiente familiar é um local onde deve existir harmonia, afectos, protecção e todo o tipo de apoio necessário na resolução de conflitos ou problemas de algum dos membros. As relações de confiança, segurança, conforto e bem-estar proporcionam a unidade familiar.

Nós, africanos, temos geralmente como estrutura familiar a Família ampliada, alargada ou extensa. É uma estrutura mais ampla, que consiste na Família nuclear, mais os parentes directos ou colaterais, existindo uma extensão das relações entre pais e filhos para avós, pais e netos, tios e sobrinhos e por aí afora.

Aludindo à necessidade de uma profunda reflexão sobre a urgência do resgate dos valores morais e cívicos para a construção de uma nova sociedade, o camarada vice-presidente do MPLA, Roberto Victor de Almeida, no seu discurso de abertura da Mesa-Redonda alusiva ao 68º aniversário de Sua Excelência o Senhor Engenheiro José Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola, a 21 de Agosto de 2010, disse, e passo a citar: “Para isso, considero fundamental analisar e compreender a evolução sofrida pela sociedade angolana, nos últimos tempos. A uma sociedade colonial de tipo repressivo e discriminatório, sucedeu, após o ano de 1975, uma sociedade mais livre e permissiva, onde emergiam espaços terminais sem lei, em que não era exercida qualquer autoridade governativa ou, em alguns casos, essa autoridade marcava presença de forma esporádica e intermitente.

A guerra, sobretudo a partir de 1992, levou à perda crescente de valores culturais, morais e cívicos…”. Fim de citação.

Ao entrar propriamente no contexto do texto, desejo comparar ou, melhor, referir à confusão que acontece entre as palavras moral e ética, existente há muitos séculos. A própria etimologia destes termos gera confusão, sendo que ética vem do grego ethos, que significa modo de ser. Já a palavra moral tem a sua génese no latim, que vem de mores, significando costumes.

Esta confusão pode ser resolvida com o esclarecimento dos dois temas, sendo que moral é um conjunto de normas que regulam o comportamento do ser humano em sociedade e estas normas são adquiridas pela educação, pela tradição e pelo quotidiano.

Um dos criadores da sociologia, Emile Durkheim, explicava moral como a ciência dos costumes, sendo algo anterior à própria sociedade. A moral tem carácter obrigatório.

Segundo Emmanuel Kant, um enorme amigo de peito do meu colega de bancada João Pinto, “a moral, propriamente dita, não é a doutrina que nos ensina como sermos felizes, mas como devemos tornar-nos dignos da felicidade”.

Já a palavra ética, segundo Motta (1984), define-se como “um conjunto de valores que orientam o comportamento do homem, em relação aos outros homens, na sociedade em que vivem, garantindo, outrossim, o bem-estar social, ou seja, ética é a forma que o homem deve se comportar no seu meio social”.

Ao falarmos de moral e ética, somos, forçosamente, levados à questão da disciplina que, segundo a socióloga Conceição Pimenta, “e, no geral, definida como castigo que produz obediência. A palavra disciplina deriva de discípulo. Tanto disciplina, quanto discípulo têm origem no termo latino que significa instruir, educar e treinar.

A disciplina envolve a modelagem total do carácter da criança ou do jovem, encorajando o bom comportamento e corrigindo aquele que é inaceitável… A disciplina inclui também a responsabilidade dos pais em obter, encorajar ou promover o bom comportamento, em substituição do mau. A disciplina inclui tanto o cultivo como a restrição dos elementos necessários para a vida”.

 

Excelência senhor presidente,

Distintas e distintos colegas,

 

Sobre o que refere a este tema aqui em debate, nesta augusta casa das leis, é mister apontar que sempre foi preocupação do MPLA, não obstante todas as vicissitudes a que Angola e os seus cidadãos fizeram face ao longo de largos anos.

Esta candente preocupação, está bem espelhada no seu Programa, ao mencionar, sem equívocos, que “numa sociedade, marcada durante várias décadas pelo conflito armado e onde se verificou uma desagregação sem precedentes de famílias inteiras, a atenção à família e à sua valorização devem constituir uma prioridade da acção política do MPLA”.

É lógico que, ao aludir no seu Programa, à família, o MPLA torna extensiva esta prioridade de acção política à mulher, à criança e à juventude.

Todos sabemos de vozes e acções que muito contribuíram e contribuem para que este desiderato não seja alcançado ou, pelo menos, retardado, que se manifestam diariamente, algumas delas a coberto de religião supostamente cristã.

É assim que, nessa árdua tarefa para o alcance efectivo do resgate destes valores, “o MPLA não pode deixar de manifestar o seu desagrado em relação às entidades ligadas a algumas igrejas, que se têm aproveitado da inocência e fragilidade das nossas populações, desvirtuando o nosso esforço na construção de uma sociedade desenvolvida, ao incentivarem determinadas práticas e rituais obscurantistas que em nada contribuem para a unidade e coesão nacional”.

Segundo a Dr.ª Fátima Viegas, “o termo igreja traduz a ideia de uma comunidade orgânica de homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, que têm sempre uma palavra a dizer sobre os problemas que afligem a sociedade. A igreja, sendo uma instituição de bem, uma instituição de moral por excelência, não pode, por isso, permanecer indiferente, perante a situação de crise de valores que enferma a família angolana”. Daí ser uma das recomendações dos proponentes deste debate, a Bancada do MPLA, envolver a igreja no resgate dos valores cívicos, culturais e morais.

De acordo com o Programa do MPLA, “a religião ocupa um espaço importante na sociedade, influindo, de maneira considerável, na consciência de uma larga massa de cidadãos.

Mais adiante, refere-se ainda que “no interesse da melhoria das condições materiais e espirituais da vida do povo, da unidade e do progresso da Nação, o MPLA preconiza uma maior colaboração e permanente participação das instituições religiosas, reconhecidas pelo Estado, nos domínios económico e social, nomeadamente nas áreas da assistência social, saúde, educação e cultura… O MPLA reconhece e apoia as iniciativas das instituições religiosas, viradas para a pacificação dos espíritos e na moralização da sociedade, a consolidação da paz e a defesa dos valores morais, cívicos, éticos e estéticos dos membros da sociedade”.

Como escritor que sou, com livros infantis publicados com um forte conteúdo didáctico, baseado na nossa tradição oral e não só, não posso deixar de abordar a questão da influência da narração, do conto, enfim.

De acordo com os professores Daisy Mendes de Melo e Evandro Abreu Figueiredo Filho - da Faculdade Atenas Maranhense “os contos podem servir de instrumento eficaz na formação ética e moral de crianças da educação infantil, pois remetem a questões éticas e permitem a assimilação de padrões de comportamentos considerados adequados, sem a necessidade de inculcação de valores por parte dos educadores, possibilitando que a própria criança reflicta sobre questões éticas e adquira consciência moral… Por meio de pesquisas, constatou-se que os contos ajudam a criança na assimilação de significados que lhes são incompreensíveis e possibilitam a instrução de valores éticos e morais necessários à formação do indivíduo, de modo prazeroso, pois possuem uma linguagem que encanta e aguça o imaginário infantil”.

Segundo estes mesmos académicos, “é assim, que os contos favorecem a passagem do nível simbólico para o real, de modo gradativo, sem transtorno ao emocional da criança, pois é interiorizado por ela de forma diferente em cada faixa etária, de acordo com seu nível de conhecimento e maturação.

Por esse motivo, através dos contos, é possível demonstrar, com mais clareza, às crianças a diferença entre o que é considerado certo e o que é considerado errado em nossa sociedade, pois, apesar de alguns contos terem sido criados há séculos, eles tratam de assuntos que lidam directamente com características e sentimentos que estão presentes no homem, como: o medo, a perda, a morte, a vida, o bem, o mal, o certo, o errado, o esperto, o tolo, o fraco, o forte, assuntos, sentimentos e características que estão e sempre estarão presentes no ser humano e, sendo assim, em todas as sociedades.

Por meio da utilização dos contos, em salas de aula, os educadores podem alcançar objectivos e obter atitudes esperadas em nível moral e ético, mesmo de crianças tão pequenas, pois eles podem ser utilizados como auxílio para resolver conflitos, que surgem na sala de aula, como a violência, a mentira, a agressividade, a indisciplina, a repulsa pelas regras, atitudes tão presentes em crianças da educação infantil que se encontram na fase egocêntrica.

Percebe-se que, por meio do contacto com os contos, as crianças conseguem compreender as questões sociais relacionadas à ética e à moral, bem como assuntos complexos, que podem ser abordados pelo professor por meio dos mesmos, de maneira fácil e lúdica”.

Não desejando ser mais extenso, já que o tema a isso se propõe e pretendendo deixar um espaço aberto aos meus colegas de bancada, que mais conhecimento e sagacidade possuem para desenvolver as diversas variações do assunto, permito-me sugerir programas tanto largos quanto alargados de interacção com os país e filhos, com os jovens e mais velhos, seja através do Estado, sobretudo com o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação, seja através das instituições sociais do MPLA, seja através das igrejas e outros parceiros sociais e, sobretudo, testemunhar-se uma reconciliação económica nacional, que, a meu ver, bastante contribuiria para a solução, se não resolução, de muitos dos problemas que conduziram ao presente estágio negativo de valores morais, éticos, cívicos e culturais.

PortalMPLA/AB

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