CARTA AMIGA AO NOVO JORNAL (NÃO É TARDE!) – A. Muatxiânvua
Tranquiliza-me que, para João Lourenço, candidato do MPLA a Presidente da República, o combate à impunidade e à corrupção é compromisso de honra.
Luanda, 13 AGOSTO 17 (DOMINGO) - 1. “Cada dia que passa vai-se descobrindo cada vez mais nitidamente que o serviçal sorriso dos caciques que projectavam, afinal, (a acção afrodisíaca do poder), cheirava a falso e que perpetuá-la na hora da despedida, ficava mal”. Eu ia pontuar: assim falava Zaratustra! Mas, não.
O autor destas linhas é-nos bastante mais próximo, Gustavo Costa, de seu nome, em crónica publicada no semanário Novo Jornal, a quatro de Agosto corrente. Para que se compreenda o alcance desse escrito, que se assemelha à denúncia da hipocrisia ou ao elogio da loucura, ele deve ser considerado no âmbito da campanha eleitoral angolana.
Na verdade, cada dia que passa aproxima-se cada vez mais do dia “D” - 23 de Agosto. Mas recuso-me a ver nele o fim do Mundo, uma data de corte com um presente que, alegadamente, mereceria “melhor futuro”...
Talvez porque professe a religião do optimismo social, entenda que o futuro depende essencialmente de nós próprios, da capacidade de compreender, uma vez mais, a dimensão dos inúmeros e delicados problemas que Angola enfrenta e não enfiar a cabeça na areia.
Já foi assim em 1975, quando nos quiseram abortar a Independência Nacional; foi também assim quando se proclamou que “Kuando-Kubango é o ponto de partida e Luanda o ponto de chegada”.
“Onde estavas tu, Brutus?” - assim me interrogou, certo dia, um camarada, destacado comandante das FAPLA. Eu, meio-envergonhado, socorri-me da lembrança de umas leituras apressadas do Capital, de K. Marx, evocando a tese da “divisão social do trabalho”. Julgava-me mais apto para a “luta ideológica”, na boca e no papel, portanto...
2. O quadro político geral em que terão lugar as próximas eleições não difere, tão radicalmente, daquele em que se realizaram as anteriores.
(Não são negligenciáveis as mudanças verificadas no essencial do universo dos eleitores. Agora há mais jovens, sem o referencial da violência da guerra; está basicamente operada a inclusão política e socioeconómica dos principais actores do que as boas consciências do presente hesitam em chamar “elementos subversivos”; em nome da “reconciliação nacional”, olvida-se a história e, pior que isso, tende-se a moldá-la, de acordo com alguns interesses (quase) dominantes; um outro elemento distintivo dos anos eleitorais anteriores é a gravidade da crise económica e financeira, induzida pela baixa dos preços do petróleo, que a oposição, basicamente, insiste em não reconhecer. Provavelmente, não terá tido acesso a Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, no seu “O Preço da Desigualdade”, nem a Noam Chomsky - o maior intelectual da esfera pública, no dizer do jornal britânico Observer- autor de “Quem governa o Mundo” – ver págs. 213-215 e 241, relativas a Angola).
Defendo, agora como antes, que a UNITA deveria ter-se demarcado, aberta e sinceramente, do opróbrio do legado de Jonas Savimbi (a subserviência aos interesses colonialistas portugueses e a aliança com o então regime de apartheid da África do Sul); renovar a sua Direcção e dar provas públicas bastantes de que renunciaria ao revanchismo e à política das “calças novas”. Não o fez e tanto quanto se prognostica, não o fará. Logo, só dela própria se poderá queixar.
E não o fará porquê? Pela natureza genética comum de Jonas Savimbi e seus sucessores políticos. Que se evidencia, por exemplo, quando Isaías Samakuva e Abel Chivukuvuku se dirigem às “massas”...
Samakuva e pares apostaram no mote da “mudança”. Esqueceram-se, no entanto, de consultar Aristóteles, para quem “persuade-se pelo carácter quando o discurso é proferido de tal maneira que deixa a impressão de o orador ser digno de fé. Pois, acreditamos mais e bem depressa em pessoas honestas, em todas as coisas em geral, mas, sobretudo, nas que há conhecimento exacto e que deixam margem para a dúvida (...). Não se deve considerar sem importância para a persuasão a probidade de quem fala (...)”.
3. Finalmente, direi, com Erasmo de Roterdão, que “digam de mim o que quiserem (porque eu não ignoro como a loucura é, todos os dias, reduzida a pedaços, mesmo por aqueles que são, ainda todos, os mais loucos), mas, no entanto, sou eu, eu só, que, com a minha influência divina, distribuo a alegria pelos deuses e pelos homens”.
No final de contas, estaremos todos aqui para celebrar a vitória da razão sobre a ignomínia de um futuro incerto.
Tranquiliza-me, desde já, que, para João Lourenço, candidato do MPLA a Presidente da República, o combate à impunidade e à corrupção seja um compromisso de honra. Que os deuses e todos os homens de boa vontade o entendam, para que cada dia que passa não seja menos um dia. Vale a pena acreditar!
PortalMPLA/AM/AB