A ópera-bufa da UNITA ou a máscara do desgosto

O argumento representa, apenas, a “capacidade” de contar as mesmas histórias banais, com trejeitos e elementos únicos que caracterizam os próprios narradores.

 

Luanda, 29 OUTUBRO 15 (5ª FEIRA) - Nos tempos actuais, onde a produção de notícias é intensa, separar o que é realidade daquilo que é ficção é um desafio que exige, cada vez mais, a atenção daquele que não se deixa levar pelo “canto da sereia” e prefere mergulhar na veracidade dos conteúdos que consome, por opção ou por entrelinhas.

Um caso recente, no entanto, impõe a nossa análise sobre um roteiro que se pretendia “filme de espionagem”, mas revelou-se uma “ópera-bufa”.

A distância entre a realidade e a ficção no roteiro teatral apresentado no formato de Conferência de Imprensa, promovida pela UNITA no dia 14 de Outubro corrente, é uma comédia dividida em actos e que tem um final trágico, dada a sua previsibilidade. Senão vejamos:

 

Acto I

 

“Fenómeno para se desviar as atenções atinentes à situação social preocupante que se vive em Angola, não só pela perturbação causada pela acentuada queda do preço do petróleo bruto no mercado internacional”.

O início da comédia denuncia a incapacidade de fazer uma crítica construtiva, aquela que não apenas aponta para o problema, mas, principalmente, indica caminhos para a solução.

A incapacidade da UNITA na política, ratificada nas urnas, através da baixa votação que recebe, fica ainda mais evidente quando ignora que a reconstrução do país não se dá do dia para a noite.

A sociedade angolana sabe, até porque ainda é muito recente, quem destruiu escolas, fábricas, estruturas e outros equipamentos sociais, que hoje fazem falta. Cobrar a diversificação da economia seria uma reivindicação legítima, se não partisse de onde partiu.

Os esforços do Governo para formar quadros, financiar o sector privado e atrair investidores estrangeiros só podem ser ignorados por pessoa ou grupo que, longe de querer o melhor para o nosso povo e o nosso país, segue no rumo da destruição, mas agora com o fel e a sede de chegar ao poder a qualquer preço.

 

Acto II

 

“Face ao nível de vida das angolanas e dos angolanos, a UNITA tem uma ideia de salvar todos eles que se encontram no limiar de desespero. A pretensão do cadeirão da República não é crime, porque assim ditam as regras democráticas”.

Aqui mais um motivo para a gargalhada, desta vez prolongada. O lapso de “amnésia selectiva” sobre quem se preocupou em criar o cenário democrático em prol da melhoria da qualidade de vida do nosso povo é visto, nesta análise (poderia ser chamada de crítica teatral), como um recurso superado, em que a personagem utiliza para tirar de si a culpa, por algo que é de conhecimento de todos.

Como uma criança com o rosto lambuzado de chocolate, mas que tenta negar que comeu o chocolate que era de toda a família, a UNITA tenta, na sua comédia, provar que Angola nasceu na tinta da caneta que assinou o acordo de paz.

 

Acto III

 

“Em inviabilizar o processo de estabilização interna da UNITA processando criminalmente a sua Direcção”.

“Em última análise, decapitar a Direcção da UNITA para que o Partido entre de novo em crise e impedindo assim o seu fortalecimento”.

Neste acto, o papel de vítima não comoveu o público, pois, dada a repetição da cena, foi quebrada toda e qualquer expectativa. É difícil rir de uma piada antiga e recorrente.

É, também, neste acto que a peça de teatro, em forma de Conferência de Imprensa, revelou ao público a baixa qualidade da sua produção artística. Por isso, longe de ser um filme de espionagem, foi transformada numa ópera-bufa.

 

Acto Final

 

“O seu compromisso com o Estado de direito, com o respeito pelos direitos humanos e pela vontade soberana do povo angolano, expressa em eleições livres e democráticas e o seu compromisso com a construção da democracia e a estabilidade”.

O acto final, que pretendia ser “catártico”, foi revelado “anticlímax”, mas não frustra a plateia, porque esta nada de novo esperava numa peça teatral que muda os actores, muda o cenário, muda até mesmo o figurino, mas em momento algum lembra de mudar a máscara que a caracteriza: a máscara do ressabiamento.

Estes argumentos nada mais são do que os verdadeiros troféus conquistados pela visão particular que vêem ou apresentam suas histórias.

Representam, nesse sentido, a capacidade de contar as mesmas histórias banais com trejeitos e elementos únicos que caracterizam os próprios narradores.

PortalMPLA/EM/AB

 

 

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